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Artigos • 25 jun, 2024

José Hamilton Ribeiro tem saga no Vietnã editada com outras grandes reportagens


(por Fabio Victor, na FSP)

‘O Gosto da Guerra’, em que detalha acidente que destroçou sua perna, passa a integrar coleção célebre de Jornalismo Literário

Integrantes da Companhia Delta do 8º batalhão da 1ª Divisão de Cavalaria Aeromóvel do Exército dos Estados Unidos faziam uma varredura de minas na Estrada sem Alegria, em Quang Tri, próxima à fronteira entre os então Vietnã do Sul e Vietnã do Norte.

Era 20 de março de 1968, e os EUA começavam a se atolar na Guerra do Vietnã. Semanas antes, o Vietnã do Norte e o movimento guerrilheiro vietcongue tinham detonado a Ofensiva do Tet, um ataque em massa sobre o Vietnã do Sul, aliado dos EUA, que expôs a debilidade da maior potência militar do mundo e ajudou a minar gradativamente o apoio da população americana ao conflito.

A coluna caminhava em forma de pirâmide. Soldados iam na vanguarda, dois a dois; no meio, operadores de rádio e o comando. Integravam a companhia dois jornalistas: o brasileiro José Hamilton Ribeiro, repórter da revista Realidade que no dia seguinte deixaria o Vietnã, e o fotografo japonês Keisaburo Shimamoto, seu companheiro de cobertura.

A paisagem bucólica reforçava uma estranha sensação de tranquilidade. “Passávamos agora por uma plantação de batata‑doce. Os canteiros separados uns dos outros por regos desviados de um regato estavam viçosos e bem tratados. Matinhos arrancados à mão e o fio de água corrigido aqui e ali de alguma obstrução natural indicavam que havia questão de minutos, naquela manhã, um lavrador estivera ali.”

Poucos metros adiante, a explosão de uma mina destroçou a perna esquerda de Zé Hamilton e provocou ferimentos por todo o seu corpo. A história é conhecida, bem como o protagonista, um dos grandes jornalistas brasileiros da segunda metade do século 20 e do início do século 21.

O título passa a integrar a coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras, coordenada por Matinas Suzuki Jr, que reúne clássicos do gênero como “A Sangue Frio”, de Truman Capote, “Filme”, de Lillian Ross, “O Imperador”, de Ryszard Kapuscinski, e “A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista”, de Joel Silveira, entre outros.

Quando ocorre a nova explosão, Zé Hamilton pensa que o atingido foi Henry. O soldado surge intacto à sua frente, mas “com o rosto transformado numa máscara de horror”. Shimamoto também caminha em sua direção. “Ele trazia um cigarro aceso e tentou colocá‑lo na minha boca. Não aceitei. Sentia na boca um gosto ruim, como se tivesse engolido um punhado de terra, pólvora e sangue —hoje eu sei, era o gosto da guerra.”

Instantes depois, o jornalista apagou, acordando somente num hospital de campanha americano. Em duas semanas, enfrentou seis cirurgias —teve parte da perna amputada— e uma rotina exasperante (“está me deixando cada vez mais azedo esse trinômio de que não consigo escapar: dor, morfina, náuseas”, escreve), até viajar aos EUA, onde completou sua recuperação por mais alguns meses antes de voltar para o Brasil.

Passados 56 anos, José Hamilton Ribeiro diz que a cena se esvaiu —não lhe atormenta, não lhe tira o sono, não sonha com ela. Mas, aos quase 89 anos (que completará em 29 de agosto), tem vivos na memória pessoas e lugares daquela cobertura.

“Era um jovem camponês, que conhecia muito do Vietnã e tinha o sonho de ser jornalista. Estabeleci com ele uma relação de muita amizade, a gente ficava sempre junto”, contou o jornalista em sua fazenda em Uberaba, onde vive desde a pandemia.

Nguyen só não conseguiu ajudar Zé Hamilton num impasse, quando um garoto de um bairro de Saigon ocupado por tropas sul-vietnamitas em busca de vietcongues ofereceu um copo de chá gelado ao repórter. Tomar ou não tomar? “Não digo nada, faça o que você quiser”, respondeu o intérprete. Digna de um bom thriller, a cena tem um desfecho surpreendente.

Outro parceiro inesquecível para Zé Hamilton foi o fotógrafo Shimamoto, ou Shima, como lhe tratava. Contratado por indicação da agência France Presse, o japonês já trabalhava havia alguns anos na Guerra do Vietnã quando o repórter chegou e virou não só sua dupla profissional, mas coadjuvante da própria tragédia.

Zé Hamilton se preparava para voltar ao Brasil; seu seguro de vida —contratado a uma companhia britânica, pois nenhuma brasileira aceitou— estava para expirar. Shima lhe convenceu a ficar mais uns dias: não tinha ainda fotos tão boas para uma reportagem de capa, faltavam-lhe imagens mais dramáticas da guerra. Embarcaram então na missão da varredura de minas, que seria a última atividade do repórter no país. No dia seguinte, ele retornaria para casa.

Numa carta à Redação da Realidade escrita na véspera do acidente, Zé Hamilton se queixa aos colegas que Shima havia desperdiçado boas oportunidades de foto à espera de “coisa melhor” e diz algo que, lido mais tarde, parece uma assombrosa premonição. “Parece mesmo bom [fotógrafo], só que o desgraçado, toda vez que peço para me fotografar com água pela cintura, ele diz ‘No good’! Acho que ele espera que uma bomba me mande para o cão, para só então achar uma boa foto!…”.

Quando agonizava no chão após a explosão da mina, amparado por um militar americano que improvisou um garrote com seu cinto, o fotógrafo se aproximou. “Vi Shimamoto tomando distância para me fotografar, e tive raiva: o desgraçado disse que ia arranjar fotos dramáticas e arranjou mesmo”, escreveu depois o repórter.

Num despacho da France Presse publicado na edição da Realidade em que saiu a reportagem (de maio de 1968, título da capa: “Nosso repórter viu a guerra de perto”), Shimamoto disse se sentir culpado pela tragédia com o colega. Zé Hamilton nunca viu assim, e a sintonia entre os dois fez com que mais tarde Shima acertasse com a Realidade sua transferência para o Brasil para trabalhar na revista após concluir mais uns trabalhos na guerra.

Não deu tempo. Em 1970, o japonês morreu quando um helicóptero dos EUA em que viajava foi alvejado pelos norte-vietnamitas. “Muito depois foi encontrado o colete dele, esse colete de fotógrafos, cheio de bolsos, com algumas fotos que ele tinha feito pouco antes”, lembra hoje Zé Hamilton.

“Shima. Que pena, que pena… Tava tudo combinado, ia ser um grande fotógrafo na Realidade. Tornou-se um amigo, assim, como se fosse amigo de infância. A gente viveu uma amizade intensa.”

Zé Hamilton só conseguiu seu visto para o Vietnã do Sul em Paris. Solicitou também um para o Vietnã do Norte, sem sucesso. De início, o governo americano convidou a Realidade, mas por fim a revista decidiu que bancaria as despesas do seu enviado, em nome de uma cobertura mais autônoma.

Embora não em tempo integral, Zé Hamilton recebeu muito apoio americano no Vietnã do Sul. No momento do infortúnio, estava integrado ao Exército dos EUA e vestia o uniforme deles. Após o acidente, foi tratado em hospitais administrados pelo país. É grato aos gringos por isso, mas não é condescendente com as barbaridades da guerra.

Critica a matança indiscriminada de civis. “Os mortos são todos rotulados de vietcongues. Não importa que entre eles haja uma velha de 80 anos, um doente que estava preso à cama ou duas ou três crianças.”

Revela métodos questionáveis para manter a moral da tropa, como cartas de mentirinha enviadas aos soldados que não recebiam correspondência. Descreve o abuso de militares estrangeiros às vietnamitas —em contraste com a revolução promovida pelo vietcongue quanto ao papel da mulher na sociedade local— e o turismo sexual que os soldados de folga faziam em países vizinhos.

E se indigna com a disparidade de armas entre os oponentes. “Esta guerra é errada demais. De um lado, 20 minutos para transportar um ferido do campo de batalha para o primeiro hospital (mais rápido do que em Nova York); de outro, o camarada lutando até morrer porque os companheiros não têm hospital para onde levá‑lo.”

Hoje ele complementa: “Acho que a presença do jornalista na guerra é um fator de humanização. Porque as pessoas, sabe, podem ser terríveis. Quando não tem testemunha, é mais fácil fazer barbaridade”.

Também há, em “O Gosto da Guerra”, espaço para bom humor. Convalescendo, escala na cama, com detalhes, a seleção dos “dez mais desgraçados do hospital”.

Na operação em busca de vietcongues em que o garoto lhe ofereceu o copo de chá, escreve sobre a estranheza de ver tantos militares sul-coreanos no bairro de Ly‑Thái‑Tó, “tão perto do Centro como a Mooca em São Paulo ou a Lapa, no Rio”. “Um batalhão de rangers do Exército sul‑vietnamita já tinha cercado um quarteirão, colorindo as ruas com seus uniformes-camuflagem, de usar na floresta. Uniforme de floresta, para brigar na Mooca? Isso mesmo.”

Por fim, a nova edição traz cinco reportagens preciosas de Zé Hamilton do seu período na Realidade, quatro publicadas entre 1966 e 1967 (antes, portanto, da ida ao Vietnã): um perfil de Chico Heráclio, lendário coronel político pernambucano; um relato minucioso sobre os primeiros transplantes de rim no Brasil, ganhadora do prêmio Esso; uma narrativa sobre os ginásios vocacionais paulistas, modelo inovador de escola pública encerrado em 1969 pela ditadura; e a experiência de emular um operário, trabalhando numa fábrica e vivendo numa pensão.

A única reportagem publicada depois da volta ao Vietnã, em 1969, e uma das mais saborosas, é um perfil de Hebe Camargo, em que contrapõe o glamour de estrela da TV às fraquezas e humanidade por trás do bastidor. Hoje Zé Hamilton ainda celebra a personagem. “A Hebe era uma pessoa de uma grande integridade. Amiga dos amigos. Uma pessoa leal, de fibra. Era uma grande mulher brasileira.”

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