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Artigos • 12 maio, 2025

O curto pontificado de Marcus Antonius


(por Carlos Castelo) –

Marco Antonio tinha dez anos. Naquela Sexta-Feira Santa, depois do bacalhau com batatas, a família assistia na TV Os Dez Mandamentos. Os únicos que não cochilavam diante da tela eram vó Vaninha e ele. Dora e Zenilton, seus pais, batiam cabeça e roncavam no sofá.

No exato momento em que Charlton Heston ergueu as pedras com os mandamentos, formou-se na cabeça do menino um pensamento definitivo: um dia, eu vou ser papa.

Dali em diante, o desejo virou obstinação. Marco Antonio passou a ler diariamente a Bíblia da avó e tanto pressionou os pais que acabou fazendo a Primeira Comunhão naquele mesmo mês.

Na época ainda não existia a palavra bullying, mas os colegas da escola passaram a chamá-lo de padreco, São Marco, Mini Jesus e outras denominações sarcásticas. O comportamento dele, no entanto, era inabalável. Certa vez, diante de uma roda de rapazinhos que o humilhavam, declarou:

— Perdoa-os, Pai, eles não sabem o que fazem.

Primeira comunhão realizada, Marco Antonio logo se tornou coroinha na diocese da Lapa de Baixo. Monsenhor Moura raramente vira vocação como aquela. Além de ser um acólito exemplar em todos os serviços litúrgicos, o garoto aprendia latim por conta própria, para interpretar melhor o Direito Canônico. Em pouco já entoava o Kyrie eleison nas missas.

Aos mais próximos, como vó Vaninha, contava seus planos. Entraria para o seminário, depois faria formação e doutorado em Teologia. E, como estava fadado a sentar no trono de Pedro, já tinha até escolhido seu nome de pontífice: Marcus Antonius.

A vozinha, encantada com a espiritualidade do neto, se emocionava às lágrimas com tanta determinação.

Um ano se passou. Na Sexta-Feira Santa seguinte, a família voltou a se reunir para o tradicional bacalhau com batatas. Zenilton dessa vez exagerou no Chalise meio-seco. Andava numa situação complicada. Puxaram-lhe o tapete na desentupidora, agora vivia de salário-desemprego.

Ao colocarem a travessa de bacalhau à mesa, Marco Antonio interrompeu os comensais, que já iam de talheres em riste sobre o peixe. Cerrou os olhos e iniciou uma prece em latim, para agradecer a Deus pelo alimento:

— Benedic, Domine, nos et haec tua dona, quae de tua largitate sumus sumpturi. Per Christum Dominum nostrum. Amen.

Foi a gota d’água para o estressado Zenilton. Levantou-se da cabeceira, puxou a cinta de couro e deu uma pisa de lascar o couro no pequeno religioso.

O mundo perdeu um papa. E ganhou mais um encanador.




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