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Opinião e atitude no Mato Grosso do Sul

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Artigos • 03 nov, 2020

O dinheiro dá risada das pessoas que dizem ser contra ele


(por Luiz Felipe Pondé )

O dinheiro ri da nossa cara do alto de sua condição de senhor absoluto do real.

Sua atitude é semelhante àquela da morte descrita por Joseph Conrad no seu clássico livro “Coração das Trevas”: a morte é uma guerreira sem pressa, certa da sua vitória, nos aguarda com um sorriso na face, do alto da sua potência absoluta.

Blasée na sua condição de guerreira sempre vitoriosa. Daí sua ausência de pressa em vencer.

O dinheiro é um mestre blasé. Nós podemos ter pressa em acumulá-lo. Ele não tem nenhuma, uma vez que sabe do fato irredutível da nossa realidade: ele compra tudo, menos a eternidade. A morte ainda é a senhora absoluta. Ele compra tudo. Não da forma grosseira como se entende essa fórmula.

Sua vitória se dá mais dentro da filosofia dos afetos do grande Nelson Rodrigues: “Dinheiro compra até amor verdadeiro”. Lugares lindos, lentidão dos gestos, poder da generosidade.

A capacidade de encantar é da natureza do dinheiro.

Sua delicadeza é tal que aqueles que se arremessam a buscá-lo de forma grosseira ou a ostentá-lo de forma abusiva acabam por perdê-lo —ou, mesmo que consigam mantê-lo, o farão às custas da sua elegância.

E todos considerarão você um rico brega que nada merece, mesmo que tenha dinheiro. Este continuará a se multiplicar em seu negócio, mas o excluirá da comunidade de amados.

Durante a pandemia, o dinheiro nada de braçada.

Uma das suas formas menos discretas é o desejo de ser celebridade. Há pessoas por aí rezando por uma segunda onda avassaladora da Covid-19 a fim de manter seu avatar na mídia e, com isso, angariar patrocínios.

O dinheiro ri, desde o Hades, da miséria desses muitos, que como um Aquiles de bolso, sonham com a imortalidade miserável dada pelo algoritmo que mede a tração do tráfego nas redes.

O dinheiro ri da fé.

Os muitos dinheiros que são gastos em nome da grande obsessão espiritual que atravessa as fronteiras ideológicas —ou mesmo fronteiras de classe social— olham pra trás, num gesto de “longa duração”, como dizia o historiador francês Fernand Braudel, e se reconhecem na pré-história: os picaretas que interpretam sonhos com os mortos o fazem desde antes da descoberta da técnica prometeica do fogo.

O dinheiro dado aos deuses, e seus burocratas, encanta o mundo porque este navega à deriva da contingência e esta é a mãe de todas as ansiedades.

O dinheiro ri do ridículo da educação.

Pressionada pelo inexorável avanço da vida como produto, as escolas nada podem fazer além de se curvarem à falsa ideia de que elas devem servir ao mercado. Tendo desistido da formação dos mais jovens, as escolas se fazem agências de inovação para gerações deprimidas.

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