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Artigos • 22 maio, 2025

O pecado da beleza


por Célio Heitor Guimarães – 

Quando se acha que, nesta altura da vida, já viu de tudo, eis que surge um fato inusitado. O mais recente veio do Vaticano, tão em moda ultimamente, embora, em princípio, nada tenha a ver com o novo papa.

Brasileira do Amapá, Aline Pereira Ghammachi nasceu vocacionada para a vida religiosa. Formada em administração, foi tradutora de documentos sigilosos e intérprete de eventos da Igreja. Em fevereiro de 2018, foi indicada para chefiar o Mosteiro San Giacomo di Veglia, perto de Veneza. Aos 33 anos, era a madre-abadessa mais jovem da Itália.

Quando assumiu a comunidade, composta por pouco mais de 20 religiosas, as freiras abriram as portas para a comunidade: passaram a oferecer auxílio para as mulheres vítimas de violência e criaram uma horta comunitária para pessoas com autismo, além de plantarem uvas para a produção de prosecco.

Em 2023, uma denúncia anônima de que Aline destratava e manipulava as irmãs e ocultava o orçamento do mosteiro, gerou uma auditoria. A inspeção concluiu pela inocência da madre-abadessa e a denúncia foi arquivada.

Meses depois, no entanto, o caso foi reaberto, a pedido do frei Mauro Giuseppe Lepori, abade-chefe da ordem que dirige o mosteiro, com quem Aline trabalhara por anos. Justificativa: segundo Lepori, ela era bonita demais para ser abadessa, ou mesmo para ser freira.

Em 2024, o Vaticano mandou outra visitadora apostólica até o mosteiro. De acordo com Aline, “ela não fez nenhum teste conosco, não fez absolutamente nada, apenas teve uma conversa” E concluiu que Aline era uma pessoa desequilibrada e que as irmãs tinham medo dela.

Quase um ano depois, enquanto o papa Francisco convalescia no hospital, a irmã Aline ficou sabendo que havia perdido o seu cargo, e uma nova madre-abadessa assumiria a comunidade religiosa.

No dia do falecimento de Francisco, a nova madre-abadessa, de 81 anos, chegou ao San Giacomo, E Aline foi informada que precisaria deixar o mosteiro e ficar isolada em outra comunidade católica. Para “fazer um caminho de amadurecimento psicológico”.

Uma semana depois da morte do papa, sem saber exatamente o motivo e sem que houvesse uma denúncia formal ou um julgamento, a irmã Aline saiu do Mosteiro San Giacomo di Veglia. No dia seguinte, cinco irmãs fugiram do mosteiro e foram a uma delegacia de polícia da cidade. Disseram que saíram só com o hábito do corpo e sem levar os próprios documentos, por não aguentar a pressão que se criou no local após a intervenção.

Outras seis irmãs seguiram o exemplo. Uma delas, a freira Maria Paola Dal Zotto, manifestou-se publicamente, defendendo a ex-abadessa brasileira: “Foi inaugurado um tratamento medieval, um clima de calúnias e acusações infundadas contra a irmã Aline, que, por sua vez, é uma pessoa muito séria e que nos últimos anos se tornou o ponto de referência para a comunidade”.

Aline abrigou-se na casa de sua irmã de sangue, em Milão, e prometeu recorrer do que considerou uma injustiça: “Eu não tive direito de defesa, fui colocada para fora do mosteiro sem motivação”. E indaga por que isso aconteceu: “Por que eu sou mulher, por que eu sou jovem e por que sou brasileira?”

Sim, prezada Aline. Por tudo isso e, sobretudo porque você tem o azar de ser bonita. Esse quesito, ao que parece, não combina com o catecismo da Igreja Católica.




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