Campo Grande, 29/05/2026 17:04

Blog do Manoel Afonso

Opinião e atitude no Mato Grosso do Sul

Artigos

Artigos • 13 out, 2025

O que nos resta é mendigar espiritualidade ridícula feita para consumo rápido


(por Luis Felipe Pondé, na FSP) –

Se olharmos para nossa civilização, com o vai e vem frenético, talvez fôssemos percebidos como um povo que dança sozinho

Uma das melhores formas, talvez, de dizer o que é o desencantamento do mundo descrito pelo sociólogo Max Weber, seja dizer que se trata de uma solidão cósmica monstruosa.

Somos uma espécie que construiu, de forma inconsciente, ao longo de milênios, toda uma rede de significados atravessados pelo mistério, por abismos, desertos assustadores e montanhas, por espíritos e deuses, e nós, modernos, os matamos todos. Resta-nos um cemitério ruidoso, mas fantasiado de progresso tecnológico. Resta-nos mendigar formas ridículas de espiritualidade produzida para consumo.

O livro do jornalista Kaíke Nanne “Como Dançar com os Mortos: Uma Jornada por Cinco Continentes em Busca da Sabedoria Ancestral”, da Maquinaria Editorial, é uma pérola em meio a tanto conteúdo risível e barulhento que nos cerca. Seguindo o psiquiatra Carl Gustav Jung, aliás, citado pelo autor, poderíamos dizer que, tendo nós modernos destruído essa malha de significados misteriosos, espirituais e cotidianos, restaram-nos a neurose e a psicose como leito da alma.

Desde a grande racionalização moderna —Weber e Jung trataram disso—, restou-nos a solidão de uma espécie que agora fala sozinha, avançando no seu delírio, achando que é dona do cosmo. Seja para destruí-lo com a ganância do dinheiro, seja para salvá-lo com a arrogância risível do seu ego, em ambos os casos, o animal é o mesmo, o sapiens dilacerado pela perda de sua ancestralidade. Se a espécie sempre foi “borderline“, agora ela é plenamente psicótica —digo eu, não o autor.

Kaíke Nanne, no epílogo, tenta responder uma pergunta essencial e clássica em estudos das religiões: como pode ser que grupos étnicos distantes, espalhados pelos cinco continentes, tenham narrativas míticas tão semelhantes? Ninguém tem a resposta definitiva, de Jung ao filósofo Gilbert Durand, do historiador Mircea Eliade ao especialista em mitologia Joseph Campbell.

O conceito de “humanidade comum”, utilizado por arqueólogos como Brian Hayden e Sophie A. De Baune, estabelece que essa humanidade contínua nos liga desde, no mínimo, o paleolítico superior, cerca de 80 mil anos atrás —os números em pré-história são imprecisos, claro— até os dias atuais. Essa “humanidade comum” se reflete em muitas das populações visitadas pelo autor. Algumas delas, presumidamente, vivendo onde vivem, há 30 mil ou 10 mil anos.

Os grupos étnicos visitados habitam várias regiões do mundo, como o alto do Himalaia, onde o ar rarefeito, disperso por vários caminhos, aplaca “o murmúrio interno da mente ansiosa”. O povo amazônico pemon, com sua divindade Makunaíma, inspiração de Mário de Andrade. Os povos do vale do Omo na Etiópia e sua ancestralidade que mescla ritos do cristianismo primitivo com judaísmo e que se veem como descentes do rei Salomão bíblico e da rainha de Sabá, tudo isso funcionando como uma forma de resistência ao desgaste do tempo histórico.

Continue lendo 

Compartilhe



Deixe seu comentário