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Artigos • 01 abr, 2026

O tédio cívico com Lula, Bolsonaro e Caiado


(por Mariliz Pereira Jorge, na FSP) –

Goiano é o coronelismo com botox, com aquele cheirinho de naftalina das oligarquias rurais. Repeteco de petista com Alckmin tem o sex appeal de um prato de chuchu, e ’01’ é o bolsonarismo de sapatênis

Abro o jornal e caio num buraco de minhoca: fui parar em 1989. Primeiro surge Ronaldo Caiado como “alternativa”. Quero meus sais. É o coronelismo com botox, com aquele cheirinho de naftalina das oligarquias rurais. Em seguida, leio que Lula e Alckmin vão seguir nesse casamento de conveniência com o sex appeal de um prato de chuchu. É a política nacional da união estável de aparência: tesão zero, mas ninguém larga a mão de ninguém.

No outro corner, o “01”. Flávio Rachadinha aparece como herdeiro de um projeto golpista que chega em versão “bolsonarismo de sapatênis”. Quem conhece que compre o filhote enrolado e desenrolado em desvio de verba de gabinete. É o mesmo pedigree com bruma de body splash para seduzir a tia do zap que agora frequenta o beach tênis.

É tédio cívico que chama? O Brasil vive um looping político constrangedor. Os personagens trocam de cargo, ajustam o tom de voz, mudam o maquiador, mas o enredo é o mesmo drama mal dublado. A polarização continua sendo o nosso oxigênio —ou melhor, o nosso monóxido de carbono. E o tal “apocalipse” prometido pela direita histérica não veio.

Para o desespero de quem achava que o Brasil viraria uma Venezuela, as igrejas seguem abertas, o agro bate recordes e ninguém foi chicoteado em praça pública por não usar pronome neutro. O governo, malandro, deixou a lacração performática para os setores que não apitam nada e apostou numa comunicação que não cheira nem fede. Avançou um pouco no discurso de proteção às mulheres, mas a realidade continua fazendo pouco caso da retórica.

O problema da esquerda é a dependência de um líder em torno do qual tudo orbita. Depois de tanto tempo no poder, ainda não conseguiu formar, com musculatura, ninguém capaz de fazer frente ao fascismo sem recorrer ao mesmo fiador. Nem para vice aparece um nome que traga frescor; imagina para 2030. Do outro lado, a direita também se organiza como se o país fosse uma capitania hereditária de sobrenomes tóxicos. E o Brasil continua lá nos anos 1990, tentando entender como se dança a Macarena.




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