Campo Grande, 29/05/2026 15:15

Blog do Manoel Afonso

Opinião e atitude no Mato Grosso do Sul

Artigos

Artigos • 26 abr, 2026

Quanto custa um novo Código Civil ?


(Cláudio Henrique de Castro) –

O direito privado se esparramou, está em diversas leis e microssistemas, mas
ainda existe um Código de Direito Privado.
O Código Civil, que é um calhamaço de capítulos e artigos do qual os cursos de
Direito levam cinco anos para ensinar. Os alunos devem ler minuciosamente suas
disposições e saber como os tribunais estão interpretando estes artigos.
De repente, uma comissão de notáveis faz um projeto, discute
interminavelmente entre si e apresenta um Projeto de Reforma que, na verdade, é um
Novo Código, como a capa de atualização.
Repleto de inovações e viradas de cabeça para baixo com o detalhe de ninguém
da sociedade ter sido consultado.
A matéria é encaminhada ao Congresso Nacional que modifica tudo de novo,
vira do avesso aquilo que já estava revirado.
Resultado?
Segundo um estudo do Núcleo de Análise Econômica do Direito do Insper que
analisou os possíveis impactos econômicos da reforma do Código Civil no país o estudo
aponta, num cenário otimista, um acréscimo total de custos de cerca de R$ 73 bilhões,
podendo chegar a R$ 184 bilhões ao ano, com impactos diretos sobre o orçamento
público e o ambiente de negócios.
O principal motivo é a judicialização.
Quanto tempo dura uma demanda de direito civil?
Segundo estudos, em média, 10 anos, se for para segunda instância. Caso a
controvérsia tenha advogados habilidosos, pode facilmente ultrapassar 20 anos.
Mudar o Direito Privado por um Congresso Nacional cuja pauta conservadora
dos costumes avança com as bancadas neopentecostais de extrema direita. É o retorno
ao passado, com os retrocessos que se espelham na concepção moral uniforme de fundo
religioso indeterminado, desconsiderando as peculiaridades de mais de 220 milhões de
brasileiros.
O que o futuro novo Código Civil nos reservará?
Um custo bilionário para a economia brasileira; uma interminável discussão
quanto as novas regras, se constitucionais ou inconstitucionais; uma pauta dos costumes
cujo motor está na extrema direita.
Mas o pior não está neste ponto, mas no retrocesso de algumas conquistas do
Direito Privado e da Constituição.
O projeto que originou o atual Código Civil, vou gestado na década de 1970, a
pior da ditatura brasileira. Engavetado, o governo FHC o desengavetou, com pequenos
ajustes. Em resumo, no geral, o atual Código é conservador e não assimilou as grandes
conquistas do direito privado do mundo civilizado.
Na marcha atual, teremos um atabalhoado de regras novas, novamente sem as
conquistas do direito privado contemporâneo, num panorama de instabilidade e
insegurança contratual, cujo modelo moral conservador não representa os 220 milhões
de brasileiros.
Novamente, ninguém será ouvido ou consultado.


Um Comentário

  1. ADGERSON RIBEIRO disse:

    Caríssimo Dr. Cláudio Henrique de Castro,
    A tua reflexão é de rara coragem intelectual. Ao meu ver, não se limita a apontar os custos econômicos da reforma do Código Civil, mas desnuda o paradoxo de um sistema que, ao pretender modernizar-se, reincide em práticas arcaicas: a ausência de participação social, a hegemonia de pautas morais uniformes e a perpetuação de um conservadorismo estrutural.
    Tua análise é rigorosa porque articula três dimensões inseparáveis:
    Técnica jurídica: ao lembrar que o Código Civil é o núcleo do direito privado, mas que sua reforma pode gerar insegurança contratual e judicialização prolongada.
    Ética e política: ao denunciar o déficit democrático de um processo legislativo que ignora os 220 milhões de brasileiros e privilegia agendas restritivas.
    Literária e filosófica: ao construir uma narrativa que revela o “custo” não apenas em cifras bilionárias, mas em tempo, retrocessos e perda de conquistas civilizatórias.
    Há, em sua escrita, uma densidade que ecoa a advertência de que o Direito não é apenas técnica, mas também cultura e memória. Reformar o Código Civil sem ouvir a sociedade é, como bem sugere, repetir o gesto autoritário da ditadura que gestou o projeto original.
    O mérito maior do texto está em mostrar que o “novo” pode ser apenas a repetição do velho, travestido de inovação. E que o verdadeiro preço de um novo Código Civil não se mede em bilhões, mas na erosão da confiança, na perpetuação da insegurança e na redução da pluralidade que deveria ser a marca de um direito privado contemporâneo.
    Bravo, Dr. Claudio H. Castro!
    Rio de Janeiro, 26/04/2026 – às 17h:46
    Adgerson Ribeiro de Carvalho Sousa



Deixe seu comentário