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Política • 04 ago, 2025

Da humilhação na política externa


(por José Sócrates, ex-primeiro ministro de Portugal, publicado no ICL Notícias) –

A Europa aceitou a humilhação, o Brasil enfrentou-a. Nunca me senti tão próximo deste país como agora

A humilhação está por todo o lado. Nas televisões, nos jornais, nas redes sociais. Especialmente nestas, das quais não sabemos ainda como nos podemos defender. A nova violência institucional é a humilhação, como podemos ver sempre que uma informação sobre um processo judicial salta para os jornais sem que o visado tenha a mínima possibilidade de se defender.

A nova moda da sociedade da humilhação é a do insulto gratuito e da acusação não provada. E, no entanto, mesmo nos momentos de maior convulsão social, o exercício diplomático sempre pareceu apartado desta doença fútil da humilhação. Até Trump ganhar as eleições. A partir daí a humilhação parece fazer parte das ferramentas da política externa norte-americana.

A humilhação é uma terrível fonte de violência humana. O seu irmão gêmeo é o ressentimento que cresce em silêncio, que se alimenta secretamente de amargura e de sofrimento mental. Quando explode ouve-se longe. O tratado de Versailles de 1918 gerou a humilhação alemã, depois o ressentimento alemão e finalmente a violência alemã. A humilhação palestina parece um problema insolúvel para o mundo e principalmente para a segurança israelita. Em 1947 havia palestinos na Palestina, agora há palestinos na Palestina, amanhã haverá palestinos na Palestina. A miserável matança de Gaza é uma humilhação para os palestinos — que o Ocidente pagará caro no futuro.

O tarifaço americano para o Brasil é também uma técnica de humilhação. Nenhum interesse comercial, nenhuma razão econômica, só a vontade de exibir o poder. Um poder que não quer atingir o corpo, mas que se dirige à face do oponente. Querer alterar uma decisão judicial através de ameaças de tarifas é um gesto desprezível que exige a rendição da soberania de um à soberania do outro.

Por outro lado, as tarifas impostas à União Europeia são outra forma de humilhação negocial: o ocidente abandona a ideologia do comércio livre e passa a resolver administrativamente os déficits comerciais entre si. Aquela imagem da pobre da presidente da Comissão apertando a mão do presidente americano e aceitando o acordo dos 15% de tarifas é uma vergonha para a Europa. Nada disto é justo e nada disto é razoável. Mas este acordo diz tudo sobre a Europa dos dias de hoje: a submissão voluntária aos caprichos imperiais. Ninguém já nos leva a sério — nem os próprios americanos que detestam espíritos servis. Continue lendo 




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