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Política • 08 set, 2025

É preciso bloquear o avanço do crime organizado no sistema financeiro


por Luis Eduardo Assis* –

Em 1936, durante alguns poucos dias, Stefan Zweig fez sua primeira viagem ao Brasil. Dela se originou um breve relato (Pequena viagem ao Brasil), um prelúdio do seu ensaio laudatório mais conhecido (Brasil, País do Futuro), publicado em 1941, um ano antes de sua morte em Petrópolis.

Em São Paulo, o austríaco foi levado a conhecer, vejam só, o presídio de Carandiru, onde foi recebido por uma orquestra afinada composta pelos detentos. Não deixou por menos: “Não é possível pensar em nada mais exemplar que essa instituição”, exultou.

Quase cem anos depois, os presídios brasileiros orquestram apenas crimes. O avanço do crime organizado é reconhecido muito antes da recente operação policial que detectou as impressões digitais do PCC na Faria Lima, como mostra A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, livro de Bruno Manso e Camila Dias.

A bancarização do crime por meio de fintechs e criptomoedas mal reguladas pelo Banco Central, inebriado pelos vapores da desregulamentação, está na ordem do dia. É primordial que se garantam os meios para que a autoridade monetária inclua todas as fintechs em seu raio de fiscalização o mais breve possível. O prazo atual, até 2029, abre as portas para a financeirização do banditismo. “O que é roubar um banco comparado a fundar um banco?”, já dizia Brecht.

Como qualquer empreendimento, o crime expande sua atuação para novas fronteiras, até porque o tráfico de drogas não sintéticas já dá sinais de anacronismo. É preciso bloquear o seu avanço no sistema financeiro. O caso brasileiro é grave, mas ainda não é crítico. Dá para piorar, se nada for feito. Em países da América Latina, há bancadas de deputados e senadores que representam, de maneira ostensiva, os interesses de criminosos. O próprio Pablo Escobar, por exemplo, chegou a ser deputado.

Consta que no México as gangues financiam o estudo de jovens talentosos em faculdades de Direito – com o compromisso de se transformarem em seus defensores no futuro. O crime organizado no Brasil avança, mas ainda não a ponto de que seus maiores representantes sejam relevantes na elite empresarial. Também não há, por exemplo, uma bancada do narcotráfico no Senado.

Se quisermos mudar de rota, é preciso reagir – agora. Isso exigirá que nos desvencilhemos tanto das ilusões fundamentalistas da esquerda (que parece acreditar que nada pode ser feito enquanto não tivermos uma sociedade menos desigual) quanto do militarismo tacanho da direita, que vê a violência desmesurada e o cerceamento ao Estado de direito como a única resposta à criminalidade. Nem a ingenuidade nem a vingança poderão impedir que o quadro piore ainda mais. No combate ao crime, o governo desafina mais que uma orquestra de presidiários.

*Economista, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central

*Publicado no jornal O Estado de São Paulo




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