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Artigos • 23 nov, 2023

Paulo Francis: o poderoso brigão


(por Geraldo Galvão Ferraz) – 

Jornalistas não costumam sobreviver à efêmera vida útil dos jornais, impressos ou de rádio/TV. Seu meio vital é essa coisa ilusória: o fato, a notícia. Paulo Francis, dez anos após sua morte, continua entre nós devido a um material até mais evanescente que a notícia, ou seja, a opinião.

Geralmente, ainda há alguma lembrança da figura do arrogante correspondente nova-iorquino dos telejornais da Globo, olhando a câmara de cima e falando com uma voz inconfundível. Ou do astro do programa Manhattan Connection que provocava as maiores discussões e as mais estrepitosas gargalhadas do horário.

Essas são, porém, manifestações da persona televisiva de Francis, que o antigo ator cultivou com técnica e esperteza. Quem se lembra da imagem de Francis na TV certamente ainda retém a memória daquele esgar de desdém que ele usava ao tratar de desafetos pessoais ou ideológicos.

A sobrevida de Paulo Francis tem que ver com a intensidade e a qualidade do que ele escreveu. Com base em uma impressionante e desordenada cultura em grande parte autodidata (ele nunca fez uma faculdade), ele opinou sobre quase tudo. Acertou muito, mas errou muito. A partir de certa época, quando consolidou seu lugar na imprensa, passou a não dar a menor bola para a exatidão e até mesmo para a coerência. Seus inimigos mantinham uma rotina de trabalho de tanto apontar erros factuais em suas colunas. O trator Francis não ligava a mínima e ia em frente.

Mesmo assim, era uma raridade na imprensa brasileira, tão avara de tomadas de posição (o porquê disso, claro, é outra história). Paulo Francis, na sua estréia como crítico de teatro, em 1957, já propunha uma briga: quem seria melhor atriz, Cacilda Becker ou Fernanda Montenegro? Ele optou por Cacilda, mas já era sua marca registrada despontando. Ser paradoxal, polêmico, às vezes exagerado tanto nos elogios quanto nas demolições. Defendia suas convicções sem olhar a quem, desde que, como escreveu, pudesse ter o supremo prazer de torcer o nariz dos poderosos.

Quem relê hoje as colunas de Paulo Francis, sobretudo as do “Diário da Corte”, sai com a impressão de que ele, muitas vezes, se crê um árbitro da elegância, do bem pensar, do bom gosto, do bem viver, que está dialogando com a plebe ignara, do único jeito que essa conversa pode acontecer: de cima para baixo. Colocando Nova York como a capital do mundo, envia torpedos de civilização para este Bananão, tão subdesenvolvido. Há um quê de ingenuidade quando, por exemplo, ele conta o preço daquilo que comeu no Le Cirque (a não ser que tenha sido uma exigência do jornal). Também, na mesma clave, em O afeto que se encerra, seu livro de memórias de 1980, não faltam menções de façanhas sexuais e alcoólicas, de brigas épicas e de bravatas físicas dignas de um adolescente.

Árbitro da elegância ou não, o texto de Paulo Francis é sempre uma delícia de ler e tem uma qualidade rara: é uma escrita tão sedutora que, de repente, faz com que se esteja concordando com ele, mesmo a contragosto. Ele faz uma mistura do culto com o popular, vai do erudito ao palavrão, usa seus bordões com extrema propriedade. Waaal!, vivia exclamando. Manejava bem o humor, sobretudo quando se tratava de espinafrar alguém. Continue lendo 




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