Campo Grande, 21/05/2024 12:30

Blog do Manoel Afonso

Opinião e atitude no Mato Grosso do Sul

Artigos

Artigos • 05 abr, 2024

Procura-se um velho


(por Tati Bernardi, na FSP) –

O horror que eu estou sentindo apenas porque prevejo o renascimento do meu ânimo

Esses dias vi um casal de idosos comprando um tapete e fiquei transtornada. A cada vez que o vendedor desenrolava uma nova opção de tapeçaria, era como se toda a verdade fosse revelada a mim: eu quero ficar velha e eu quero que alguém fique velho comigo.

Não é Paris, muito menos Machu Picchu. Não é chá alucinógeno, muito menos condomínio fechado com ondas falsas em Porto Feliz. É alguém para dizer “acho que o nosso bambu da sorte vai ficar melhor uns dez centímetros pra esquerda”.

Não me chame para conhecer um lugar descolado no centro da cidade, eu desprezo todos os lugares descolados do centro da cidade. Me diga que vai comigo em minha colonoscopia (e que o tesão não sofrerá nenhum abalo), leia livros em silêncio enquanto leio livros em silêncio (e somente nossos pés deitados se encontram e dançam juntos) e me aguarde enquanto eu escolho, com calma, meus potes herméticos com bons preços.

O horror que eu estou sentindo apenas porque prevejo o renascimento do meu ânimo. Conhecer gente nova, usar roupa de gatinha, berrar em ouvidos perto de uma caixa de som, dormir tarde, esperar ansiosa por mensagens, contar entusiasmada minhas histórias em um lugar descolado no centro da cidade (e eu desesperada sem enxergar o cardápio mesmo com meus óculos de leitura).

Estou apavorada: talvez eu volte a gostar de Carnaval, beije rapazes jovens, tenha aquelas cistites de começo de relação. E tudo isso para quê? Só de pensar sinto preguiça da vida que se repete, repete, repete. Nenhum homem quer envelhecer e eu, que apenas envelheço, não quero mais nenhum homem.

Alcancei muito mais do que imaginei na minha vida profissional, então esses dias pensei “bem, é isso, tá ótimo”. E realmente fiquei em paz com a minha desistência da vida amorosa. Chega. Vou ler, estudar, cuidar da minha filha, trabalhar alucinadamente e um dia dar uma pequena falecida. Mas a minha crista ilíaca não topou o acordo. A minha excitação ainda acredita em coisas que nem meus olhos, muito menos o coração, conseguem ver.

A saudade que eu sinto de andar de mãos dadas pela Leroy Merlin para escolher varal (nem lembro se essa cena aconteceu de verdade, mas guardo essa imagem como se tivesse visto no mais belo filme francês). Eu que venho de uma família minúscula, desunida, quebrada, precisei combinar comigo, na adolescência, que um dia formaria uma nova e bela parentada. Nas décadas seguintes eu ainda leria muita filosofia, sociologia, psicanálise, autores depressivos, intelectuais cínicos, mas continuaria obcecada pelo mesmo desejo.

Tenho um metro e sessenta e um. Tinha um metro e sessenta e dois, mas ao que tudo indica encolhi um centímetro. Se você me encarar bem de perto, e em dias ensolarados, vai descobrir que tenho olhos verdes. Torro todo o meu dinheiro, então invento mais 37 projetos divertidos (não nos faltará assunto, tampouco emoção). Reclamo muito, mas meus amigos me acham engraçada justamente por essa razão. Tenho dores no corpo, mas elas não tiram nem 1% da minha esplendorosa e infindável libido.

Havia meses eu não conseguia chorar (vai ver, vistas cansadas andam sem tempo para lidar com lágrimas). Chorei na loja de tapetes, mas ainda não sei se foi rinite ou esperança.

Compartilhe



Deixe seu comentário