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Opinião e atitude no Mato Grosso do Sul

Crônicas

Crônicas • 14 mar, 2026

O jogo que valia dois garrafões de vinho…


 ( por Antonio Ueno) – O ano era 1976. Naquele pedaço de chão que na época ainda era o Mato Grosso, o destino de dois garrafões de vinho foi selado em um campo de terra batida no município de Itaporã.

O cenário era o sítio do Seu Dal, em Santa Terezinha, um ponto estratégico entre as terras do Velho Orélio e do Seu Lin, a meros mil metros da propriedade do meu pai, o lendário Manoel da Curva. Ali, o futebol não era apenas esporte; era uma questão de honra, medida em litros de vinho e suor.

O desafio

O embate era de gigantes: de um lado, o time do Carumbé (os caras eram bons, não se pode negar). Do outro, os donos da casa, o Santa Terezinha (onde só jogavam os melhores).

O prêmio? Nada de aplicativos de apostas ou cifras milionárias. O troféu eram dois garrafões de vinho. Não me recordo se era Dom Bosco, Capelinha ou Del Rei, mas lembro do efeito: aquilo tinha mais teor alcoólico que juízo, e quem vencesse levaria as duas preciosidades para casa.

Os guardiões da única bola

Eu estava lá, na linha de frente da logística. Eu, o “Japonês Calabresa, foi o diabo que te fez”, acompanhado de uma trupe de elite de gandulas: Pedro do Dal (que, justiça seja feita, já tinha me dado uns sopapos); Preto do Ramuntunico; Tita do Seu Cirço e Nego do João Ozório.

Nossa missão era vital. Só tínhamos uma bola. Se ela caísse no meio das guaxumbas ou fosse parar entre as patas das vacas no pasto vizinho, o jogo esfriava. Tínhamos que ser rápidos, driblando o gado e os espinhos para garantir que a partida não parasse.

O Juiz de Montese

Para garantir a “ordem”, trouxeram um juiz de fora, lá de Montese. Diziam ser imparcial, mas no calor da poeira, a mãe dele era a pessoa mais citada em campo. E “o pau torou”. O jogo pegou fogo entre empurrões, gritos e a poeira que subia a cada dividida. No apito final, a glória: Santa Terezinha 2, Carumbé 0.

O vinho que ninguém bebeu

A vitória estava garantida, mas a ética esportiva do Carumbé ficou no vestiário (que, no caso, era a sombra de alguma árvore). Os perdedores se recusaram a entregar os garrafões. O que se seguiu foi uma briga generalizada digna de filme de faroeste pantaneiro.

No meio do “rebu”, o destino foi cruel: os dois garrafões foram ao chão. O vidro estraçalhou, e o vinho — aquele líquido precioso que deixava todo mundo doidão — foi bebido pela terra batida do sítio do Seu Dal. Ninguém tomou nada.

O batismo no Sardinha

Com o fim trágico da celebração alcoólica e o corpo coberto de poeira e adrenalina, restou-nos a pureza. Eu e meus amigos — Pedro, Preto, Tita e Nego — deixamos a confusão para trás e corremos para o Córrego Sardinha.

Lá, entre as águas geladas e as risadas, lavamos a alma. Se o vinho se perdeu, a memória ficou guardada. O Santa Terezinha ganhou, a infância foi maravilhosa e, no fim das contas, a gente não precisava de álcool para se sentir vivo.

“Tempos bons? Acredito que sim… Tive uma infância cheia de emoções!”

Por Antonio Ueno (Cientista Político)


Um Comentário

  1. Geo Santos disse:

    Amei, uma narrativa maravilhosa, só quem teve uma infância no interior, sabe o quanto a vida é virtuosa e cheia de encantamentos, o convívio com a natureza; o cheiro do capim molhado, o canto dos pássaros, o barulho das águas no riacho, o vento da manhã, geladinho, no rosto, o por do sol entre as montanhas…
    Tudo é tão belo e nos renova só em pensar.
    Parabéns, Antonio Ueno (Cientista Político).



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