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Artigos • 01 nov, 2018

Arrume a quitanda, capitão (artigo)


Desde a hora em que a candidatura de Jair Bolsonaro encorpou, sua vitória era ao menos uma possibilidade. Abertas as urnas, ele levou a Presidência da República, elegeu três governadores e deu carona aos candidatos vitoriosos no Rio, São Paulo e Minas Gerais. Seu partido tinha oito deputados e ficou com 52. Vendaval semelhante, não acontecia desde 1974. Naquela eleição o eleitorado derrotou a ditadura. Nesta, derrubou peças de dominó. O voto anti-PT não foi tudo. Veio também um recado em relação ao costumes e outro, temível, associado à segurança pública. Talvez o ano de 1968 tenha terminado no Brasil durante seu cinquentenário. (A bandeira “Seja Marginal, Seja Herói”, de Hélio Oiticica, é de 68.)

Quem achava que boi, Bíblia e bala eram coisas de outro Brasil, calado, acordou com o estrondo de um país onde o boi empurra a economia, metade da população é favorável à pena de morte e a Bíblia é o livro mais lido. Infelizmente as turmas da bala e o setor paleolítico da turma do boi têm uma relação violenta com o andar de baixo.

Os golpistas e os demófobos votaram em Bolsonaro e em seus candidatos, mas nem todos os seus eleitores podem ser considerados golpistas ou demófobos. A relevância de cada grupo será medida ao longo do mandato do capitão e caberá a ele administrar a quitanda defendendo a República de golpes, demofobias e, sobretudo, melhorando administração pública. Nos dias seguintes à vitória, tudo são planos, promessas e ambições, mas Bolsonaro foi eleito para fazer um serviço que durará quatro anos e pouco se sabe de seus projetos específicos.

Um rápido episódio ocorrido num hotel da Barra da Tijuca na segunda-feira mostra que o capitão precisa tomar conta da quitanda. O economista Paulo Guedes estava numa poltrona num saguão de hotel e começou uma entrevista. Irritou-se com uma pergunta sobre o Mercosul e deu uma resposta desconexa, pontilhada por uma impropriedade, pois na sua formação essa zona de comércio nada teve de ideológica. O Mercosul foi criado em 1991, durante o governo de Fernando Collor de Mello, e nele só estavam o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Até aí, tudo bem.

Depois de se irritar, Guedes reclamou da situação em que estava, espremido na poltrona, cercado de microfones diante de perguntadores desorganizados. Reclamou: “Eu não vou falar assim, não. Tem que ser organizado. Está muito desorganizado (…) São perguntas completamente desconexas. (…) Não é possível falar com 30 pessoas de uma vez só. Não dá, é simples como isso. Olha a posição em que eu estou.”

Tinha toda razão, mas quem provocou a bagunça foi ele quando aceitou conversar com jornalistas naquela posição. O doutor pode consultar os arquivos em busca de uma cena semelhante com o ministro Pedro Malan, ministro da Fazenda de FHC. Ele nunca desqualificou perguntas nem elevou a voz. Ter jornalistas farfalhando por perto faz bem ao ego, mas exige bons modos.

Tomara que o doutor entenda de economia e aprenda a conversar com repórteres. Quitandas têm regras. A berinjelas devem ficar à vista do freguês e o caixa, atrás do balcão. Nada teria custado a Guedes dizer que não falaria num saguão, muito menos espremido numa poltrona. Uma palavrinha ao gerente do hotel seria suficiente para que desse uma entrevista confortável, calma e sobretudo informativa.

Jair Bolsonaro colecionou pérolas de impropriedades dando entrevistas em corredores e batendo boca com colegas na Câmara. Agora o jogo é outro. Ele não deve ser imitado, pois a quitanda precisa de arrumação.

Elio Gaspari 

*Publicado na Folha de S.Paulo




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