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Artigos • 18 out, 2018

Vitória no grito (Folha de São Paulo)


 

Eleitores veem em Bolsonaro o porta-voz de todos os seus ódios e suas frustrações

Jair Bolsonaro será eleito presidente no dia 28, se os números das pesquisas se confirmarem. Será uma vitória no grito. O candidato do PSL não precisa participar de debates e esclarecer seu plano de governo. Tudo o que ele tem de fazer é seguir à risca o comportamento que adotou desde que se lançou ao cargo: ir à internet e gritar.

Funciona, como percebemos, e como observa o pesquisador britânico Jamie Bartlett. Em entrevista à Folha, ele disse que candidaturas de outsiders e de políticos de perfil autoritário são as mais favorecidas pelas comunicações digitais e Bolsonaro é a manifestação brasileira desse fenômeno. Para ele, esse tipo entendeu melhor a dinâmica da agressividade das novas mídias.

Os jornais publicam uma reportagem desfavorável ao candidato. O que ele faz? Compartilha a notícia e escreve “LIXO”, “FAKE NEWS”. Não precisa de mais nada porque encontra um eco entre seus eleitores, que veem em Bolsonaro o porta-voz de todos os seus ódios e suas frustrações. Ele xinga, desdenha, menospreza, ironiza por meio de tuítes. Exatamente o que esperam dele. E ele sabe disso.

O mesmo já aconteceu na eleição de Donald Trump e mesmo depois dela. Ele foi ironizado por governar por meio do Twitter, ao fazer e desfazer anúncios, demitir pessoas, bater boca com líderes mundiais. O eleitor não apenas se reconhece naquela atitude histriônica e autoritária como se sente mais próximo e cúmplice de seu governante.

Bolsonaro é um case a ser estudado e compreendido. Passou como um trator por cima de candidatos como MarinaAlckminMeirelles, Alvaro Dias, que têm em comum, carisma zero, a fala mansa, a falta de intimidade com as redes sociais, o discurso democrático. O eleitor do candidato do PSL não responde a esses estímulos —ou a falta deles. Ele quer o que fala mais alto, ameaça e aponta o dedo. Bartlett diz que a internet está minando a democracia. Está mesmo e em CAIXA ALTA.

Mariliz Pereira Jorge

*Publicado na Folha de S.Paulo




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