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Brasil • 05 abr, 2018

GAUDÊNCIO TORQUATO


Crônica da barbárie

POR GAUDÊNCIO TORQUATO 

Vivemos tempos bárbaros. A face de um Brasil violento se escancara, a partir do mais bonito cartão postal brasileiro, o Rio de Janeiro, onde jorra sangue na guerra entre as forças de segurança e a bandidagem. Manchetes sobre a tragédia carioca ganharam o mundo com o crime da vereadora Marielle Franco, do PSOL, e de seu motorista Anderson Gomes, vítimas de milícias.
Os números da violência espantam: mais de 60 mil assassinatos por ano no Brasil, o que supera em quase 15 mil os da Europa inteira, Estados Unidos e China, esta com uma população quase cinco vezes maior. Ou seja, em apenas uma hora, sete cidadãos tombam vítimas da bandidagem.
Com a repressão no Sudeste, as gangues fogem para outras regiões, particularmente o Nordeste, que respira um clima de medo. No contraponto, policiais com proventos atrasados e em greve, equipamentos sucateados, ruas sem segurança e violência se espraiando.
O total de vítimas é maior que o das guerras modernas. Deve-se considerar também o empobrecimento do País. O rombo da Previdência, por exemplo, tem a ver com o cano assassino que mata, aleija multidões, alarga a fila nos hospitais, multiplica as pensões de viúvas, devastando parcela ponderável do Produto Interno Bruto (PIB), dinheiro que poderia ser investido em hospitais, escolas, casas, transportes e agricultura.
Mas a barbárie possui outras facetas, como a dos privilégios. Em tempos de escassez, é inadmissível que categorias profissionais defendam com unhas e dentes vantagens incorporadas aos seus salários, alargando a distância entre os milhões de brasileiros que vivem com um salário-mínimo e as castas que juntam mensalmente R$ 30, R$ 40, R$ 50 mil ou mais de proventos, somando subvenções para auxílio-moradia, auxílio-paletó, auxílio-transporte, auxílio-comida, auxílio-livro e etc.
A barbaridade sobe os pedestais. Veja o que ocorreu no altar da nossa mais elevada Corte judicial durante o julgamento do habeas corpus (HC) encaminhado pela defesa do ex-presidente Lula. Mais de quatro horas de exposições e debates, porém ainda não o mérito. Decide-se por maioria pelo acolhimento e, por solicitação do advogado de defesa, acolhe-se uma liminar para que Lula não possa ser preso até 4 de abril, data de julgamento do HC. Blindagem contra eventual posição do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TFR-4), tomada no dia 26 de março, que negou por unanimidade os embargos de declaração interpostos pela defesa de Lula, mantendo a condenação.
A barbaridade vem agora. Um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) avisa que irá viajar. A sessão poderia ter continuado, mas foi suspensa por cansaço de suas excelências. Na Semana Santa terão um tempinho de lazer. O HC tem prioridade ou as conveniências pessoais prevalecem? A imagem do STF, já desgastada por querelas pessoais, acaba esmaecida.
Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e consultor político e de comunicação.
Twitter: @gaudtorquato



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