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Crônica

Crônica • 01 set, 2023

Reflexões numa picada de mata


(por Carlos Castelo – Estadão) – 

Saiu da autoestrada e entrou na mata que dava na chácara. Foi afastando os cipós, mirando as gigantescas sibipirunas, figueiras e carvalhos centenários. Os raios do sol penetravam pela densa folhagem, criando um jogo de sombras no chão coberto de folhas secas e raízes. O ar tinha um cheiro de terra molhada, madeira e folhas em decomposição, uma fragrância que preenchia os pulmões com a essência da vida em estado bruto.

À medida que avançava, os sons do progresso ficavam cada vez mais distantes, suprimidos pelo coro de pássaros, insetos e outros animais da mata. A vegetação ali não era apenas uma coleção de árvores; era um sistema completo, pulsante. Havia arbustos com flores multicoloridas que abrigavam pequenos insetos e beija-flores; samambaias e orquídeas cresciam nas fendas das árvores. Folhas de bananeiras balançavam com a brisa que, de vez em quando, invadia o verde emaranhado.

Ele sentia a presença grandiosa dos jequitibás e perobas, verdadeiros titãs da floresta. Aqui e ali, se deparava com algumas seringueiras. Palmeiras juçara se elevavam, apontando para o céu como lanças, suas bases cercadas por bromélias e outras plantas epífitas.

Os musgos cobriam os troncos das árvores como um abraço apertado, em várias tonalidades de verde e até mesmo de azul. Tudo em volta parecia estar em constante transformação, numa dança lenta e infindável de crescimento, decomposição e renovação. Camadas de folhas caídas no chão formavam um colchão que abafava seus passos, enquanto em alguns lugares, filetes de água cortavam o cenário, refletindo fragmentos do céu e alimentando pequenas poças onde sapos e pequenos peixes encontravam refúgio.

Sim, aquele era o caminho definitivo para uma vida mais próxima da vida. A cidade, como costumava afirmar fazendo pilhéria, era um lugar onde não se vivia. Tomara a decisão de abandoná-la e, agora percebendo aquela profusão de campo do jângal, sentia que a decisão de partir tinha sido a mais acertada.

Depois de quase uma hora de caminhada, a mata começou a se abrir. As árvores se espaçavam, e a luminosidade crescia. Foi quando avistou, à frente, a casa. Uma estrutura bem sólida, de madeira e pedra, com um telhado de barro, varandas e janelas de guilhotina. Ao seu redor, já no campo aberto, os flamboyants gritavam suas cores, e os ipês variavam entre o rosa e o amarelo, como sentinelas que marcavam a fronteira entre a floresta e a civilização.

Ficou ali parado, olhando a construção. Era como se a própria chácara, em sua rusticidade, lhe desse boas-vindas.
Mirou o silêncio ao derredor e recordou a velha frase: “o homem mais forte do mundo é o mais solitário”.
Acendeu um cigarro, se sentou sobre um tronco. Entre tragadas e pensamentos, se enxergou integrado a um novo e fascinante universo. Foi quando o escorpião picou a sua bunda.

(Publicado no Estadão)




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