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Artigos, Brasil • 30 abr, 2018

Nos sapatos do passado


por Ruy Castro

Há tempos, um amigo, sujeito sofisticado e em dia com as novidades, me disse orgulhoso que comprara pela Amazon o LP de João Gilberto, “Chega de Saudade”, de 1959, na sua novíssima versão em vinil de 180 gramas, prensada na Europa. E me perguntou se eu também tinha. Murchei as orelhas e disse que possuía só a edição original do disco, de 1959. Aliás, originalíssima: o LP ainda com a capa de papelão, que seria substituída naquele mesmo ano pela capa-sanduíche, flexível, de plástico por dentro e por fora. A de papelão é que era rara. O camarada ficou sem fala.

Mas não me entenda mal. Se não possuísse o LP original, eu me contentaria perfeitamente com a nova edição em vinil, pelo simples prazer de estar manuseando e botando para tocar um disco histórico no formato em que ele foi concebido —pondo-o na vitrola e, ao fim do lado A, virá-lo para escutar o lado B, e assim por diante. Seria uma maneira de me pôr nos sapatos de tantos que tinham feito aquilo por tanto tempo.

Bem, não preciso me colocar nos sapatos dos outros porque, afinal, sou daquele tempo. Aliás, gosto de fazer até hoje coisas que sempre fiz e não vejo por que abandonar. Por exemplo, tenho um relógio de mesa, na família há mais tempo do que eu, ao qual preciso dar corda de vez em quando —ele me retribui com a melodia do Big Ben, de Londres. Faço isso porque, um dia, alguém terá também de me dar corda.

Minha agenda de telefones ainda é o velho caderno seboso, escrito a mão. Tenho uma TV de tubo que funciona quase tão bem quanto uma smart TV —que também tenho. E, nos hotéis, por falta de celular, preciso pedir que me despertem a tal hora da manhã. Gosto da sensação de, enquanto for possível, continuar vivendo como em 1990.

Ah, sim, o LP original de “Chega de Saudade”, de 1959. Pela reação de meu amigo, achei melhor não lhe dizer que tenho, não um, mas dois exemplares do disco.

*Publicado na Folha de S.Paulo




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