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Artigos • 03 fev, 2024

Pacaembu agora abriga o admirável mundo novo das mercadorias


(por Mario Sergio Conti, na FSP) –

Em lugar do tupi, a língua dos ‘brands’ e logos; Nike, Microsoft, McDonalds, Coke, Tesla

Os novos caciques do Pacaembu comemoraram na quarta-feira seu triunfo sobre a tribo tupi que um dia foi dona do pedaço. Uma corporação cucaracha pagará R$ 1 bilhão para, durante três décadas, pôr seu nome no estádio art-déco inaugurado em 1940.

Tinha razão Demócrito, o filósofo grego mais por fora que bunda de índio —tupi, no caso— quando disse que “as palavras são a sobra da ação”.

Porque a nomenclatura do estádio mostra como flores tóxicas do presente brotam de raízes pútridas do passado.

O logotipo da várzea rebatizada traz primeiro a imagem do aperto de mãos da multinacional que se apropriou do nome. Depois, em letras graúdas, botou-se “Mercado Livre Arena”. Abaixo, como uma acanhada nota de rodapé, vem o vencido “Pacaembu” do povinho originário.

O aperto de mãos significa fechar um negócio. O acordo comercial ocorre no mercado, lugar onde uns vendem o que produzem e outros compram o que consomem. Não é um mercado chinfrim; nele atuam uma baita multinacional e uma alta ideologia: o Mercado Livre e o livre mercado.

A megaempresa opera na América Latina toda. Tem 30 mil funcionários e não produz picas; vende e entrega mercadorias à mostra no site. O dono é o argentino mais rico do sistema solar, Marcos Galperin.

A ideologia é a do liberalismo econômico, o “laissez-faire” que começou com Colbert e passou por Adam Smith e Stuart Mill. Ela é hoje aríete da desregulamentação, arma com a qual o mercado acossa e arromba Estados —vide Javier Milei, apoiado com fervor pelo mascate Marcos Galperin.

O neo-Pacaembu saiu da pia batismal pingando sangue. Ele goteja do terceiro termo do novo nome: arena. Em latim, a palavra quer dizer areia. Não é uma areia qualquer, mas a que recobria o chão dos coliseus romanos. Sua função era absorver o sangue dos gladiadores que ali se trucidavam.

O Mercado Livre Arena é, pois, um anfiteatro onde a nata transnacional pratica a política da antiga aristocracia romana: pão e circo para a plebe. Mas, com o estádio privatizado e movido a grana, a plebe ignara não terá acesso a ele. Venderá churrasquinho de gato na porta.

Por fim, o Pacaembu propriamente dito. O vocábulo aborígene não é somente hipocrisia, tributo do vício à virtude. Também diz a meia-voz que a arena multiúso (argh) é fruto da elite público-privada de agora. Esclarecida, ela derrama lágrimas crocodilescas pelos tupis que a elite de outrora extinguiu.

“Pacaembu” quer dizer atoleiro. Denominava o riacho que ia do espigão da Paulista até o rio Tietê e, por vizinhança, os nativos que viviam nas margens alagadiças. Os jesuítas os amansaram e o consórcio luso-bandeirante mandou-lhes balaços de bacamarte na testa.

Logo, fique esperto e seja politicamente correto: faça três segundos de silêncio em homenagem aos mortos para se dilatar a fé, o império e o mercado d’além-mar. Aí curta os trinados de Wesley Safadão no Mercado Livre Arena Pacaembu —um nome com a eufonia de uma rabeca velha.

Em 1958, o estádio passou a se chamar Paulo Machado de Carvalho, o marechal da vitória canarinho na Copa, conhecido como cabeça de jaca devido ao crânio oblongo. Apenas locutores usavam o nome oficial.

Maluf, o huno, se apossou da prefeitura em 1969. Pôs abaixo a concha acústica curvilínea e fez subir o tobogã tenebroso —que alegrou empreiteiros e deve ter rendido uma piscina olímpica de dólares.

Bruno Covas vendeu o estádio ao desconhecido grupo Allegra Pacaembu. Ele está pondo de pé hotel, lojas, restaurantes e centro de convenções. Mas a ênfase será em espetáculos atordoantes. Se Bolsonaro voltar, periga petistas serem jogados aos leões para atrair fascistas à arena.

Ela deveria estar pronta, mas as obras estão mais atrasadas que as da Sé de Braga. Ao se justificar, o chefe da Allegra, Eduardo Barella, disse que o Pacaembu terá “uma abertura faseada”. Quis dizer inauguração em fatias, sabe-se lá quando, e veio com a batatada fraseada.

Como usou também “naming rights”, merece o quê? Ser empalado no obelisco do Ibirapuera, transplantado para o Mercado Livre Arena Pacaembu? Não, claro. São as múmias avessas ao progresso que têm de se amoldar à língua dos bambambãs do turbo-mercado.

É a língua dos “brands” e logos —Nike, Microsoft, McDonald’s, Coke, Tesla, Apple e quejandos—, entes que divulgam e vendem, além de mercadorias, modos de vida. Seu admirável mundo novo é um cruzamento entre duty free com shopping center, um Pacaembu do qual não dá para fugir nunca.




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