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Artigos • 31 jan, 2024

Para os brasileiros pobres, continua um bom negócio votar na esquerda?


(por Wilson Gomes*, na FSP) –

Adeus Marx, a luta racial explica tudo, a luta de classes nada esclarece, a população deve votar com o racismo em mente

Se uma pessoa é pobre ou vive na miséria, continua um bom negócio votar na esquerda? Os defensores do liberalismo econômico argumentam que a esquerda não resolve efetivamente o problema dos pobres, por ser incapaz de gerar riqueza. Na visão deles, tudo o que a esquerda consegue fazer é socializar a pobreza ou criar Estados que acodem os pobres, nada mais.

No entanto, esse tipo de argumento, seja verdadeiro ou falso, raramente se torna uma “razão de voto” para os mais vulneráveis da sociedade. Quem tem fome e vive na precariedade, com a vida por um fio, não tem doutrina econômica preferida, tem é urgência.

É nessa perspectiva a minha indagação sobre se os pobres continuam tendo boas razões para votar na esquerda. Intuitivamente, pareceria que sim. Afinal, até onde meu conhecimento alcança, ser de esquerda consiste em priorizar a igualdade, inclusive a igualdade econômica.

Uma conclusão coerente em um universo em que já se aceitou a tese da equivalência entre a esquerda e a corrupção. Corrupção moral, que fique bem claro. Nesse caso, mais vale salvar sua alma imortal do que compactuar com a imoralidade por uma Bolsa Família.

Além disso, governos de esquerda, mesmo que programas sociais e iniciativas para aumentar emprego e renda causem um impacto significativo, não apresentam soluções consistentes para superar a pobreza, nem a curto prazo, nem de maneira sustentável ao longo do tempo. A pedra que nos governos Lula se empurrou ladeira a cima, rolou de volta no governo Dilma e continua lá embaixo.

Sabe quem mais está fazendo um esforço significativo para comunicar aos pobres que a esquerda deixou de ser uma opção vantajosa? A própria esquerda. Ou pelo menos uma parte dela que hoje faz muito barulho no governo e no debate público. Essa parcela transmite incessantemente a seguinte mensagem: a razão principal para o voto não deve ser seus interesses de classe, mas sim sua identidade racial, de gênero e orientação sexual.

Se você é pobre e miserável, mas também preto, trans, mulher e homossexual, tudo bem; no entanto, se for pobre e não pertencer a qualquer uma dessas identidades, você é parte do problema. Eu não sou um homem, branco, heterossexual e cisgênero, mas se o fosse —e adotasse a minha “identidade” como principal razão eleitoral, como os identitários propõem— é provável que não votasse em uma esquerda que nada tem a me oferecer a não ser culpa e exigências de compensação por delitos que julgo não ter cometido.

No entanto, é disso que se trata. Recentemente, foi noticiado que metade dos concluintes do Ensino Médio no Brasil não participou das provas do Enem. Esse é, sem dúvida, um dos dados significativos para qualquer projeto que pretenda enfrentar efetivamente o problema da pobreza no país. Fora um registro de perplexidade do ministro da Educação, o escandaloso dado praticamente escapou ao debate público.

Como ninguém “racializou” o fato de que metade dos nossos estudantes interrompeu sua formação, condenando-se automaticamente a uma vida muito mais difícil, o assunto foi deixado de lado. Em vez disso, o foco central da discussão foi a ministra da Igualdade Racial explicando enchentes e desigualdade urbana com base no racismo.

Adeus Marx, a luta racial explica tudo, a luta de classes nada esclarece. Sobretudo, não vote com base na sua condição de pobre, vote com o racismo em mente.

Vai dar muito certo, confia.

*Professor titular da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e autor de “Crônica de uma Tragédia Anunciada




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