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Artigos • 15 set, 2023

Pecado é não ser rico


(por Renato Terra

Pelo direito inalienável à herança, uni-vos) – 

Lá se vão décadas e décadas de construção de um imaginário que aplaude o super-rico que ostenta um carrão milionário, mas limita a solidariedade à boca pequena. Fomos incapazes de gerar valor, prazer e reconhecimento —sem culpa— no altruísmo. Super-rico bom é aquele que é generoso, mas não conta para ninguém.

Quem compra bolsas Chanel é visto como bem-sucedido, mas quem oferece bolsas de estudo infelizmente é visto como burguês-culpado-hipócrita-que-quer-se-promover.

Não é de hoje. Ainda na República Velha, a gente já tratou de organizar um grande acordo nacional para tratar os super-ricos como cafés com leite. O clube dos super-ricos, que naquela época atendia pelo “username” @Oligarquia, escolhia os presidentes. E os presidentes tratavam os super-ricos como clientes “prime”. Entre outras coisas, o governo comprava as produções excedentes de café.

O sábio Barão de Itararé descreveu a Revolução de 30 como “uma divergência entre os membros da mesma classe dominante”. A revolução de Getúlio Vargas acabou em ditadura.

Em 1964, outra ditadura tomou o país e aumentou drasticamente a desigualdade social. Diz o El País: “Em 1960, antes da ditadura, o índice de Gini, utilizado para medir a concentração de renda, estava em 0,54; e pulou para 0,63 em 1977”. O coeficiente de Gini vai de zero a um. Quanto mais perto de um, mais o país é desigual.

De um jeito ou de outro, o Brasil passou os últimos cem anos como a pátria mãe gentil dos super-ricos. E os super-ricos retribuíram criando áreas VIP.

A essa herança (põe herança nisso) acrescente-se esta frase de Arminio Fraga publicada nesta Folha na segunda-feira: “A carga tributária que incide sobre os mais pobres é maior do que a carga que incide sobre o 1% mais rico”.

Justiça seja feita. Alguns super-ricos souberam olhar para o Brasil. Investem em ciência, educação, procuram soluções inovadoras para a Amazônia, oferecem empregos em condições dignas em empresas com responsabilidade social. De fato, não há pecado nenhum em ser rico.

Mas é curioso que a maioria dos super-ricos tenha o umbigo como universo. Faltam ideias de Brasil, de sociedade, de inovação. O que se vê são iniciativas coordenadas para defender offshores, fundos exclusivos e o direito inalienável à herança.

Uma miopia que ergue muros que atravancam a construção de um país. E a sociedade, para além do condomínio, vai ficando mais hostil. Pecado, na verdade, é não ser rico.

*Publicado na Folha de S.Paulo




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