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Política • 04 fev, 2024

Breve reflexão sobre a velhice


(por Mário Montanha Teixeira Filho – Blog do Zé Beto|) –

O menino que a pessoa conserva em si é um obstáculo no caminho da velhice. (Stanislaw Ponte Preta)

Alguns anos atrás, quando completei os sessenta e as leis declararam a minha velhice civil, senti um vento leve bater na minha cara. Um vento até agradável, que talvez tentasse dizer algo que eu não percebi. Encarei a data com serenidade, sem pensar em quase nada, bem diferente do que se deu quando do meu cinquentenário agitado, num dia frio em que as pessoas se protegiam de uma gripe espalhada pelo planeta, na antessala do grande surto pandêmico que viria pouco tempo depois. Era uma impressão estranha de quem se despedia dos últimos vestígios da juventude e se largava na direção de uma esquina sombria e desconhecida. Resisti, de qualquer modo.

A senilidade confirmada na década seguinte não me perturbou. Nenhuma mudança brusca se pôs entre mim e o mundo, e a minha disposição para as atividades que me agradam não sofreu abalo aparente. Passei a usufruir de pequenas comodidades, como vagas preferenciais em estacionamentos, descontos mentirosos na compra de ingressos para espetáculos culturais, prioridade nas filas de bancos e mercados e outras que o honorável sistema jurídico me proporcionou.

De início, não cheguei a notar que estava velho. Aos poucos, porém, a realidade me jogou na cara o ledo engano. Pessoas mais jovens começaram a me cumprimentar na rua, encarando-me como um homem frágil a ser protegido, abrindo passagem com olhares de preocupação e uma certa dose de pena. Isso tudo numa cidade de seres majoritariamente encolhidos em suas tramas individuais, de olhares desconfiados e palavras poucas.

Não fosse assim, outros sinais haveriam de me dar o alerta. Num período curto, fui protagonista de pequenos acidentes. Ao sair de um restaurante, minhas pernas se embaralharam, de modo a me fazer perder o degrau da escada, e jogaram meu corpo no asfalto. Permaneci lá, estatelado, poça de sangue sob a cabeça, assistido por uma multidão curiosa a me olhar à espera do socorro verdadeiro. Passado o vexame, veio outro dia atrapalhado, em que uma das minhas mãos se queimou quando eu manipulava, meio sem jeito, uma chaleira de água fervente. E tornei a cair logo em seguida, agora na calçada perto de casa, num passeio com a Nina, minha amiguinha lhasa. O tombo rompeu os ligamentos do meu calcanhar e me deixou de molho por muitos dias, daqueles longos e aborrecidos.

São eventos que podem acontecer com qualquer um, incluídos os moços, dirão os otimistas. É verdade. Minha incursão no mundo da terceira idade não vem desses episódios aleatórios. Mas é forçoso reconhecer que as coisas mudaram, não são mais como antes. Mesmo que a cabeça não fique toda hora a me lembrar da minha antiguidade, os movimentos que faço atualmente exigem um grau de concentração enorme, quase exaustivo. Abaixar-me para catar objetos no chão, carregar peso, acelerar o passo, esticar o corpo, chutar uma pelota, tudo ficou mais sofrido e difícil. Ganhei um medo permanente, que me faz pensar que a qualquer momento, sem equilíbrio, verei a paisagem que me cerca girar outra vez. Continue lendo 

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