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Artigos • 24 mar, 2020

Covid-19: quem vai colher nos erros de Bolsonaro?


O tabuleiro político sofreu seu primeiro abalo após as eleições. Para quem passou muito tempo no canto do ringue, poder dar um grito e bater sua panela é um alívio libertador. Mas fica uma pergunta: quem vai colher nos erros de Bolsonaro?

A classe média é movida pelo medo. Foi o medo de encontrar a diarista na poltrona ao lado no avião que forjou o ódio ao PT. O medo de morrer fez a classe média ficar contra o Capitão.

Para a classe média, morrer de gripe é coisa de pobre. Ao subestimar o pânico dos que “morrem só de pensar” que poderão ser cremados juntos com os pobres, o presidente cometeu seu maior erro até aqui.

A pesquisa Atlas realizada entre os dias 16 e 18 de março aponta que 44.8% dos brasileiros são a favor do impeachment, enquanto 45,2% são contra. Sua avaliação de ótimo e bom recuou para 26%. Os que consideram seu governo ruim ou péssimo somam 41%.

O erro de Bolsonaro ressuscitou três personagens do campo conservador. Doria aproveitou a brecha e foi para a ofensiva. Witzel, encurralado pela situação financeira dramática do Rio, provou que na política a política ainda conta.

A noiva esquecida também parece ter tirado novamente o seu vestido do armário. Mourão voltou a ser desejado por parte da elite como uma espécie de “Bolsonaro com recall”, um homem capaz de dar estabilidade ao mesmo projeto.

Em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, o líder soviético resolveu cruzar os braços quando estourou a revolta dos nacionalistas poloneses – anticomunistas que contavam com seu apoio – contra os alemães. Esperou o resultado da batalha para depois lutar e derrotar o exército alemão já desgastado.

A Globo espera que Lula lidere uma campanha pelo impeachment. O silêncio é revelador da posição do ex-presidente. Ciro também percebeu a jogada do andar de cima e rejeitou a “saída Mourão”.

É muito cedo para prever como cada ator sairá da crise. Qual será o tamanho da tragédia humanitária? Qual será a dimensão do buraco na economia?

O governo tem instrumentos para reagir. O fim da meta fiscal com a aprovação do estado de calamidade abre a possibilidade de medidas heterodoxas. Destinar 200 reais durante três meses para 15 milhões de pessoas surtirá algum efeito?

Como a oposição progressista pretende canalizar a insatisfação para o seu campo? Não existe hoje uma Frente Ampla contra Bolsonaro. Vigora no sistema político o “salve-se quem puder”. Pontos de consenso são eventuais, pontuais, episódicos.

Ciro rompeu com Lula que não quer papo com o centro liberal. Ninguém aceita ser liderado por ninguém, uma fragmentação autofágica que favorece o jogo de Jair.

Vai surgir algo novo? É sempre uma possibilidade, mas por enquanto está no campo das vontades. Se a eleição fosse hoje, o mais provável ainda seria uma repetição da disputa entre a extrema-direita e o PT. Para onde iria essa classe média “revoltada”?

O Capitão é produto de uma crise. O caos é seu ambiente natural. Suas ambições totalitárias nunca estiveram tão afloradas. Quem hoje deseja realmente derrubá-lo?

Subestimá-lo pode ser um grave erro.

Ricardo Capelli – Congresso em foco




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