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Artigos • 21 jun, 2018

Um tributo ao senador Buarque


No momento em que a classe política nacional rala ao rés do chão, há que se destacar as exceções que, para confirmar a regra, surpreendentemente, ainda existem. Uma delas é o senador Cristovam Buarque.

Ele é um agente político de pouca presença na mídia nacional. Costuma usar a tribuna do Senado às segundas-feiras e discursar para um plenário às moscas. Além disso, tem uma ideia-fixa: a educação. Pernambucano de nascimento, Buarque fez carreira no Distrito Federal, onde foi governador, reitor da UnB e ministro da Educação. Ficou no primeiro governo de Luiz Inácio até 2004, quando foi demitido por telefone. Como petista, teve a audácia de insurgir-se contra os mensaleiros de Zé Dirceu. Deixou o PT e foi para o PDT, mas fez questão de registrar: “Eu não sai do PT, foi o PT que saiu de mim”.

No ministério da Educação, Cristovam implementou o Bolsa-Escola, com um salário mínimo a cada família carente que tenha todas as crianças, de 7 a 14 anos, na escola. Com isso, reduziu a evasão escolar de 10 para 0,4%. É dele, também, a Mala do Livro, constituída de caixas-estantes com cerca de 150 volumes cada, instaladas em residências de Agentes Comunitários de Leitura, para o empréstimo de livros – didáticos, de apoio escolar e de literatura. Só por isso já mereceria o meu voto para a presidência da República.

Nas eleições de 2006, votei em Cristovam Buarque (com o saudoso senador Jefferson Péres como vice). Talvez por ser também um idiota que coloca a educação no topo das necessidades nacionais. Sabíamos que não iríamos ganhar, mas não fizemos feio e aliviamos a alma. Cristovam ficou em quarto lugar, com mais 2,5 milhões de votos.

De Cristovam Buarque quero relembrar um fato histórico genial protagonizado pelo senador, quando ainda ocupava o ministério de Lula e visitava uma universidade nos EUA.

Em um debate com estudantes, o ministro foi indagado sobre o que pensava sobre a internacionalização da Amazônia. O jovem inquisidor advertiu que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro.

A resposta do nosso Cristovam foi a seguinte:

— De fato, como brasileiro, eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que vem sofrendo a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, assim como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.

Continuou: “Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço”.

“Da mesma forma” – prosseguiu –, “o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um só dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos permitir que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação”.

E foi em frente: “Antes da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização dos grandes museus do mundo. O Louvre, por exemplo, não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar que esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário, ou de um país”.

Disse mais: “Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser também internacionalizada. Pelo menos, Manhattan. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Brasília, Rio de Janeiro, Recife, cada cidade com sua beleza específica e sua história no mundo”.

Mais ainda: “Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil”.

E arrematou: “Alguns dos candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de comer e de ir à escola. Internacionalizemos as crianças, tratando-as, não importa o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo todo. Ainda mais do que a Amazônia. Aí, elas deixarão de trabalhar quando deveriam estudar, de morrer quando deveriam viver. Como humanista, aceito a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa”.

Assim é Cristovam Buarque, um político que pouca atenção tem recebido da imprensa, que não dá causa a manchetes, que não posa de salvador da pátria nem de falso guardião da ética e da moral nacionais, mas vai fazendo o seu trabalho na solidão de Brasília e do Congresso Nacional. E quando provocado, sabe reagir na medida exata. E por isso merece o nosso respeito.

Por Célio Heitor Guimarães

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