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Artigos • 01 mar, 2024

A inveja satisfeita (por Miguel Esteves Cardoso)


A inveja é um ardor de injustiça. O invejoso sente-se roubado, destituído do que merece. É o narcisismo que lhe dá a indignação

Podia-se passar uma vida a pensar no mal que o narcisismo e a inveja fazem a toda a gente, incluindo ao próprio narcisista e invejoso.

Quem não pensar muito no assunto pode achar que o narcisista não pode ser invejoso, porque se acha o máximo: os outros é que podem ter inveja dele. Mas o narcisista, por se achar o máximo, acha que tem direito a tudo e a todos. Quando não tem o que acha que merece, e vê que outros, que não merecem, têm aquilo que considera seu por direito – incluindo a adoração – sucumbe à inveja.

Melanie Klein viu que o contrário da inveja não é o amor, não é a generosidade, não é o contentamento: é a gratidão. A gratidão é que falta ao invejoso e ao narcisista – até se quisermos separá-los e considerá-los um a um, incorporados em indivíduos diferentes.

A frustração do narcisista é não ser auto-suficiente. Odeia depender dos outros, mas só dos outros é que pode receber a adoração que o convence. É terrível o que faz para obter essa adoração. Já o invejoso – teoricamente – limita-se a odiar os outros à distância. Na prática, claro, ambos estragam a vida a toda a gente.

A gratidão não é passiva: é comercial até. O que é que eu tenho para dar a alguém, para poder receber dela o que preciso? Este comércio chega ao auge nas trocas amorosas e nos estados de paixão, em que ambos os amantes se rasgam em bocados para se oferecerem um ao outro.

Cada amante pode esquecer-se de quem é, porque o outro não pensa noutra coisa. Ocupam-se mutuamente, com a ânsia de amar e de perder, entregues à gratidão: à gratidão de estarem ali, de se terem encontrado. O amor é a inveja satisfeita.

FONTE – BLOG DO NOBLAT – SITE METROPOLES




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