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Política • 14 dez, 2019

Deserto da notícia ( Folha de S.Paulo)


Governantes não têm simpatia pela informação crítica e desimpedida

É em ambiente de sucessivos ataques ao jornalismo profissional que o Atlas da Notícia apresenta a terceira edição de seu levantamento anual.

Se persistir no tempo, este louvável e interessante esforço de mapeamento dos veículos jornalísticos vai se converter em ferramenta inestimável para o diagnóstico da democracia brasileira e da qualidade de vida da população.

Os dados ainda são precários e a metodologia está, aparentemente, em processo de formação. O desafio é complexo, a começar pela própria conceituação de “veículo jornalístico” ou de “jornalismo local”.

Os pesquisadores localizaram 11.833 veículos jornalísticos em atividade (rádios, impressos, online e televisões), desigualmente distribuídos pelo território nacional.

De cerca de 2.000 veículos, há informações complementares, como endereço, rede social, estrutura e modelo de negócio.

Foram fechados 331 (195 deles impressos) desde 2003, mas não há estimativa de inaugurações no mesmo período.

É de se esperar um número expressivo de plataformas online criadas no século 21.

O Atlas chama atenção para os desertos de notícia (expressão que surgiu na língua inglesa, news desert): 3.487 municípios (62,6% dos municípios brasileiros) sem apuração sistemática e periódica de informações jornalísticas a respeito do próprio lugar.

São 37 milhões de pessoas, aproximadamente 18% da população, governadas pelo poder local sem a mediação da imprensa.

É um enorme vazio e a ele se soma a necessidade de outro tipo de mapeamento: o dos atentados à liberdade de expressão.

Na quinta-feira (12), o site The Intercept Brasil noticiou que os provedores de internet Vivo e Claro bloqueiam o acesso ao site da ONG Women on Waves, que divulga informações sobre “aborto seguro”
—medida sintonizada com a ordem ideológica de Bolsonaro. Censura semelhante, perversa e estúpida, só acontece em países como Irã e Turquia.

Na semana passada, como represália por reportagens, O Globo foi proibido de participar de entrevista à imprensa do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella.

A liberdade de informação é valor constitucional que a lei de abuso de autoridade não protege. Censura judicial e gestos autocráticos se amontoam impunemente desde o fim do regime militar.

O ex-prefeito de São Paulo Jânio Quadros decretou em 1987: “Nenhum jornalista da Folha de S.Paulo entrará neste gabinete ou nas dependências deste gabinete” e “nenhum anúncio será publicado nesse jornal”.

A Polícia Federal do ex-presidente Collor de Mello criou pretexto para invadir a Folha em 1990. Em outubro, Jair Bolsonaro ameaçou pela televisão: “Nenhum órgão aqui do meu governo vai receber o jornal Folha de S.Paulo aqui em Brasília. Está determinado”.

No poder, o PT patrocinava o jornalismo aliado. Além de apostar em robôs poluidores do espaço virtual, Bolsonaro comemora no dia 19 o lançamento do Brasil Sem Medo, que o presidente do conselho editorial, o “jornalista” Olavo de Carvalho, patrono da revolução dos cretinos, define como o “maior jornal conservador do Brasil”.

Governantes não têm simpatia pelo jornalismo crítico ou pela informação desimpedida. Sempre reclamam da parcialidade do repórter ou da edição, do erro, da imprecisão, da maldade, da tolice, do exagero, da distorção, da privacidade violada, da perseguição injusta.

Gostam é de jornalismo laudatório. A desertificação do noticiário adverso talvez seja o desejo
inconfessável de todos eles.

Luiz Francisco de  Carvalho Filho

*Publicado na Folha de S.Paulo




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